VOZ
DA TERRA IMPRESSA MAIO DE
2003
Se você não é barra limpa, não vá!
Conforme combinado na edição
anterior continuo reproduzindo textos de jornais antigos
na qual falava-se de Monte Verde, ou seja, do seu início
como pólo turístico. Nesta edição estarei reproduzindo o
Suplemento de Turismo do Estado de São Paulo, de agosto
de 1968 da jornalista Clycie Mendes Carneiro. Veja alguns
trechos na íntegra:
“Quem lhe contou sobre este lugar? É a pergunta que ouvirá,
invariavelmente, quem chegar a Monte Verde. Porque este
lugar não existe no mapa e em nenhum compêndio de geografia
ou história. Está entre o céu e a serra. Há vinte anos tudo
era mato. Com onça suçuarana, porco do mato, paca, tatu,
capivara, lontra e outros bichos de que ainda existem descendentes
por lá.
Monte Verde é um pedaço da Europa, de clima europeu e habitado
por europeus, em território mineiro.Mas, quem freqüenta
é só gente de São Paulo. Quem mora lá e não tem cara de
alemão, suíço, holandês, húngaro, austríaco, tem nome ou
sotaque. Mas todos são bons brasileiros, a maioria naturalizada.
Japonês só tem um, que vai uma vez por semana, levar verduras.
Quinhentos habitantes são a população fixa. Dobra ou triplica
em certas ocasiões do ano, com os fãs incondicionais que
sobem a serra. Quando se fala em estrangeiros, pensa-se
logo num povo austero, egoísta, individualista, reservado.
Em Monte Verde não é assim. Todos são amigos de todos, formando
um só clã, uma só família.
Se você pedir um lápis ou uma caneta em Monte Verde, ninguém
terá para lhe emprestar. Se perguntar as horas, dificilmente
obterá informação. O dia, os recém chegados podem informar.
Nenhuma casa tem antena de televisão e nem televisão sem
antena. Rádio, idem. Repórter nunca encontrou o caminho,
a não ser um de certa revista carioca que quis cobrar o
serviço. A resposta foi que nem de graça lhes interessava
tal cobertura. Greves de estudantes, operários e de artistas,
bombas terroristas confina-mentos de Jânio, política salarial,
tudo fica no sopé da serra e nem os ecos chegam à vila.
Em Monte Verde não há lei, mas paradoxalmente, todos a cumprem
com rigor. Não tem delegado, nem soldado. Quiseram mandar
um de Camanducaia. Mas os maiorais raciocinaram: como ele
não vai ter o que fazer acaba bebendo pinga, fazendo desordem,
e a gente tendo de prende-lo E agradeceram o oferecimento.
Um inspetor de quarteirão, amador, o açougueiro, é o que
existe em matéria de policiamento. No mais cada chefe de
família é seu guardião. Só uma vez a cidade se empolgou
com uma cena de far-west: quando apareceu um grileiro, bebeu
uns tragos e começou a dar tiros de carabina. Pegaram o
cara, e devolveram a Camanducaia.
Respeite a tranqüilidade de quem quer sossego e também terá
o seu quinhão, portanto se você não é barra limpa não vá
a Monte Verde.”
Bom, aproveitando a oportunidade, essa idéia se faz valer
até os dias hoje!
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