VOZ DA TERRA - jornal impresso e virtual de Monte Verde
Diretor: Egydio Coelho da Silva
O Ponciano - a cidade que desapareceu:novembro de 2.003
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VOZ DA TERRA IMPRESSA, DE NOVEMBRO DE 2003 A cidade que
desapareceu: histórias e lendas
Há muito tempo atrás,
antes mesmo da chegada dos letos na região, existiu um lugar considerado
um paraíso pelos antigos habitantes, o Ponciano. Uma região de matas
nativas e cercadas por pinheiros, cachoeiras e muitos bichos como a onça
pintada e a suçuarana. Um povo hospitaleiro que gostava de muita festa. O
acesso pelo Ponciano poderia ser feito também pela região de São
Francisco Xavier, interior de São Paulo. De acordo com depoimentos de
quem viveu nesta cidade tudo era muito tranqüilo até a chegada da Cia.
De Papel, nos anos vinte, por volta de 1925. Liderada por alemães que
imigraram para o Brasil devido à explosão da primeira Guerra Mundial, a
Cia era rígida com o povo do Ponciano, segundo relato dos mais antigos.
Eles tinham que trabalhar duro fazendo mudas de pinheiro durante três
anos para a Cia, só depois receberia pelo trabalho. A cidade foi sumindo
após a desapropriação dos terrenos adquiridos pela Cia. A antiga
igrejinha construída por seu povo, as poucas casinhas existentes foram
destruídas e não restava nada mais para aquela comunidade, senão
procurar outro lugar para começar a vida. Isto aconteceu próximo à
chegada definitiva do Sr. Verner na região, por volta de 1950, quando
começou a construir a cidade. E, graças ao Sr. Verner, muitos
desempregados tiveram o seu apoio e vieram trabalhar na construção de
Monte Verde. Hoje não existem nem mesmo ruínas no Ponciano, apenas as
estórias e histórias de quem viveram lá. O Sr. Sebastião Nunes,
77 é uma pessoa muito especial. Ele é bravo, porém bondoso e cativante.
Ele é daqueles que não engole sapo, não leva desaforo para casa,
entende? Além disso morou no Ponciano
quando era jovem e viveu na comunidade que ali existia, antes mesmo da
chegada dos letos, europeus, húngaros etc. É fazer uma pergunta apenas,
que o Sr. Sebastião começa a contar histórias e não pára mais. Ele trabalhou na
Companhia Melhoramentos até 1963 e veio para Monte Verde trabalhar com o
Sr. Verner, assim como todos que tiveram que abandonar a comunidade e
procurar outro canto para começar tudo outra vez, depois que a Cia fechou
o local. “Eles derrubaram tudo até a igreja que eu ajudei a construir
no Ponciano” fala bravo o Sr. Sebastião. Segundo o Sr. Sebastião
em 1950 a Cia já estava naquela região. “ A gente tinha que trabalhar
para eles fazendo cultivo de muda. Eu perdi três anos da minha vida
trabalhando para eles. Briguei muito naquela época pelos meus direitos e
até mostrei a minha espingarda” relembra as gargalhadas o seu Sebastião.
As histórias do misterioso Negão da Serra Quem viveu naquela
serra misteriosamente foi o Negão da Serra, ou seja, um homem alto,
forte, destemido e corajoso, que mais tarde foram saber que seu nome era
José Benedito e paulista da região de Amparo. A história do Negão
pelas serras do Ponciano não se sabe quando começou e nem porque. Tudo
que se sabe sobre o Negão da Serra foi colhido através de depoimentos de
pessoas como o senhor Sebastião Nunes, seu Benedito Carlos, Tio Nassif e
o seu Mateus dono de um barzinho. É neste boteco que a turma de violeiros
se encontram para cantar suas modinhas e relem-brar o passado. Outro lugar
que eles se reúnem é a garagem do seu Zé do Gás. Toda santa sexta
feira estão lá os violeiros e sanfoneiros para mais uma seresta. O misterioso Negão da
Serra vivia num rancho feito por ele mesmo na serra. Tinha os pés
calejados de tanto andar a pé, as mãos ressecadas da lida, rosto e pele
marcada pelo sol forte das montanhas. Ele sobrevivia do leite das vacas do
vizinho, do farelo de trigo dos cochos, tirava o leite das cabritas que
subiam a serra e tirava o proveito de tudo que estava a sua volta. Porém,
mesmo fazendo na calada da noite, escondido de todos em horários
duvidosos, o Negão da Serra pagava por tudo que consumia. Ao acordar o
vizinho tinha a surpresa de todo o seu terreno carpido pelo Negão, ele
fazia questão de trocar o seu alimento pelo trabalho enquanto todos
dormiam. A rotina do Negão da serra era diferente de toda sua vizinhança.
Ele dormia durante o dia enquanto havia sol e o tempo estava quente.
Durante a noite o Negão andava para aquecer do frio abaixo de zero que
fazia na serra onde vivia. Era durante a noite que providenciava o seu
alimento e trabalhava carpindo os terrenos vizinhos, tirando o leite da
vaca, dividindo o farelo do cocho com os animais e etc. A sua cama era
quase sempre em cima de uma árvore para escapar das onças. E olha que até
onça pintada o Negão da Serra presenciou por lá. Ele não falava com
ninguém nos seus encontros casuais com trabalhadores que subiam a serra.
Também não mexia com as moças que por ventura saíam em busca de lenha
para acender o fogão. Alguns dizem que o Negão
da Serra morreu com 52 anos, outros com 84. Só se sabe que seus pés
ficaram calejados e feridos de tanto bicho de pé. Um derrame o atacou, a
língua enrolou e o contato com a civilização por estar numa cama de
hospital fez com que o Negão se entregasse a morte. Dizem que ele era
perseguido pela polícia por isso vivia isolado e tinha medo de falar com
as pessoas. Poucos tiveram contato com o Negão, mas nada melhor do que
ouvir as histórias contadas por eles. Veja a seguir as histórias sobre o
Negão da Serra, contadas por quem conviveu com ele: Histórias de quem conheceu o Negão da Serra A parte mais
interessante da história que conta o Sr. Sebastião Nunes, foi a convivência
que ele teve com o Negão da Serra enquanto morava no Ponciano, próximo
ao acesso do rancho do Negão. “Eu tinha uma vaca
com bezerro que pastava próximo ao rancho dele. Sempre passava por lá.
Fui eu quem tirei ele do mato quando machucou. Sempre subia a serra para
pegar a vaca com o bezerro e levava os meus cachorros. Daqui a pouco os
meus cachorros acuaram ele e eu cheguei e ralhei com os cachorros e
ele tentou fugir com medo de mim. Eu falei que não carece ter medo de
mim. Ele tinha a língua travada para falar. Eu pedi para ele ficar
quietinho e fui buscar um remédio para ele. Eu disse para ele: não saia
daí senão os cachorros pega você viu! Trouxe duas cibalena e uma
garrafa de café. Ele tomou as duas e bebeu toda garrafa de café. Ai,
pedi para o inspetor de quarteirão avisar alguém para tirar o Negão
dali e levar para o hospital que ele estava muito doente. Quando chegou o
socorro o Negão já estava soltando a fala, ele era divertido e gostava
de fumar cachimbo que nem eu. Fui visitar o Negão no
hospital da delegacia e que ninguém ia impedir de entrar. Depois ele
ainda voltou para a serra e morreu com 84 anos.” Ele sempre repete
quando narra a história ou estória do tal
tomadô de conta, que ele não suportava e vivia brigando.
‘Ninguém manda em mim, quem manda aqui sou eu viu! Eu mando em tudo
aqui e vou entrar” conta quando não deixaram, ou seja, tentaram não
deixar o Sr. Sebastião entrar na delegacia para ver o Negão. Em 1963 quando chegou a
Monte Verde ele conta que foi Continua na página
8. Continuação
da página 7 A cidade que desapareceu: histórias e lendas
Cachoeira
dos Poncianos abordado pelo Sr.
Verner na rua e perguntou se ele não estava trabalhando. Ele disse que não
e logo, o Sr. Verner lhe ofereceu um emprego. “Hoje eu não posso ir que
não trouxe a marmita” disse para o Sr. Verner, que logo disse que ia
mandar preparar o seu almoço. “Eles vieram com um prato de arroz, feijão,
macarrão e bastante carne” conta ele sorrindo e dizendo que foi bem
tratado pelo Sr. Verner. A partir daí começa
uma nova vida e uma nova etapa de trabalho, ele é mais um que ajudou como
tantos outros, a construir o que é hoje Monte Verde. O Sr. Benedito Carlos,
77, também conheceu o Negão da Serra de perto e conversou com ele
algumas vezes. “Ele era meu xará, se chamava Benedito, tinha os braços
e o rosto calejado de tanto andar pela serra. Ele era um negão alto e
forte, mas não era feio de assustar não! Eu perguntava para ele o que
fazia com as onças lá na serra. Ele me respondeu: “durmo em cima da árvore
e ela fica me rodeando a noite inteira, tem até onça pintada por lá.”
Um dia ele me disse que
a polícia o perseguia achando que ele havia matado os filhos. Pelo que eu
sei ele era pobre e encontraram os filhos mortos, talvez de fome e daí
passaram a perseguir o Negão.” lembra Sr. Benedito. José Fernandes, 63, o
Tio Nassif como é conhecido, é um violeiro dos bons. Ele o senhor
Matheus dono de um barzinho onde é o local de encontro dos violeiros de
Monte Verde sabem tudo sobre o Negão da Serra. Eles cantam a música do
Negão e do Alemão que rodou na cachoeira. O Tio Nassif conta que tinha
mais ou menos sete anos quando foi morar em Ponciano e desde de criança
ouvia contar sobre o homem misterioso que vivia na serra. “Quando tinha
lua e achava uma enxada, o Negão carpia o terreno seja de quem fosse. Uma
época sumiu uma porca e seu pai disse que havia escutado barulho de porco
no rancho do Negão. Chegando lá
na serra, acharam não só a porca mais dez leitãozinhos. Se ele fosse
pessoa do mal teria matado para comer. As vezes sumia uma cabrita, era o
Negão que levava para o rancho para tirar o leite e depois devolvia. Ele
ajudava a criar o seu porco, mas ficava com 10% dele, além de carpir o
seu terreno como forma de agradecimento” Conta Tio Nassif. Negão
da Serra Letra de Ananias Gomes de Moraes eTio Nassif Lá no bairro onde eu morava Vou contar o que aconteceu O negão apareceu ha muito tempo passado Morava naquela serra E ninguém o conheceu Mas um dia pra roubar daquela montanha ele desceu Quando foi um dia cedo o pretão apareceu Foi encontrado no meio da capoeira lá estava deitado Não podia mais andar com as pernas encarangadas Não soltava mais a fala, a língua estava travada O preto estava doente com a perna enfraquecida Ele se viu obrigado a entregar a sua vida Sua perna estava inchada Chegou a virar ferida E pedia salvação a Senhora Aparecida Quando eu soube da notícia cortou o meu coração Avisamos lá no bairro ao inspetor de quarteirão Avisamos a companhia que era dona deste chão Para levar o preto velho Eles mandaram um caminhão Essa história aconteceu lá no bairro onde eu morava Pegaram o pobre preto e no hospital eles trataram Com remédio mais nada adiantava Preto velho não sabia que a morte ali estava Coitado daquele preto Ninguém sabe o que passou Já fazia trinta anos que na mata ele morou Mas o povo deste bairro o pretão respeitou E despediu daquela
serra quando a morte lhe chamou.
(FIM DAS NOTÍCIAS) Página principal e índice por assunto
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